Estranhamente, o beco estava quieto demais. A jovem hesitou por um momento, então acelerou o passo e encarou o silêncio do beco. Do telhado de uma das construções um homem a observava. Um aroma leve e adocicado se espalhou pelo local. O homem inspirou por um instante e sorriu.
— Uma mortal... — disse o homem — linda e jovem.
A jovem andava mais rápido. A aflição tomava conta de seu peito. Se ela pudesse ver o futuro não teria escolhido esse trajeto nessa noite. Mal sabia a jovem que seu caminho cruzaria o de outras criaturas. Duas das mais vis criaturas que existiam desde o início dos tempos. Dois filhos da noite.
As luzes do beco apagaram-se, restando uma fraca luz lunar. A jovem parou subitamente, a aflição crescendo em seu peito. O homem surgiu diante dela. Era belo, envolvente. A pele clara, os cabelos presos em um rabo baixo, as vestes pretas e o casaco assemelhavam-no aos nobres europeus. Ele aproximou-se e cumprimentou-a com um gesto cortês.
— Olá bela mortal! Há muito tempo que espero ansioso teu retorno a esta viela maldita.
A mortal nada disse. Tentou desvencilhar-se do estranho, mas ele impediu-lhe a passagem. Tentou ir pelo outro lado e foi novamente impedida. Ficaram num impasse como se dançassem o minueto. O homem ria-se com o desespero da mortal. A mortal parou e encarou o homem. Virou-se para voltar para a Rua XV, mas o homem já estava na sua frente. A mortal tentou gritar e ele segurou-a pela garganta.
— Shhh... Não tenhas medo, bela mortal. Acalma-te e desfruta desse imenso prazer. — o homem aproximou a boca do pescoço da mortal, porém parou subitamente. Um doce e inconfundível aroma de flores dama-da-noite invadiu o beco. O homem sorriu discretamente.
— Guardas o prazer somente para ti? — disse uma voz às costas da mortal.
O homem levantou a cabeça e encarou a escuridão daquele beco. Tudo estava silencioso, mas ele sabia que havia mais alguém ali, e não era alguém qualquer. Ele reconheceria aquela voz, aquele perfume, em qualquer lugar, qualquer época. O perfume de dama-da-noite intensificou-se. O homem podia sentir o coração da mortal batendo forte em sua mão. Os olhos do homem agora eram vermelhos como sangue. Ele sorriu revelando seus caninos, presas mortais. O coração da mortal batia ainda mais acelerado.
— Não me digas que tens ciúme de uma mera mortal... — disse o homem, ainda sorrindo, para a escuridão. Um passo quase inaudível e a pouca luz da lua naquele beco revelou uma mulher jovem e bela. Ela trajava um vestido preto com luvas que chegavam ao cotovelo, como fora costume na iluminada Paris, tinha os cabelos negros e encaracolados chegando à cintura e olhos brasis que encantavam e amedrontavam. Ela aproximava-se do homem calmamente, encarando-o, prendendo sua atenção a cada passo. A mulher parou ao lado do homem. Os dois encararam-se, ignorando a existência da mortal. Não fosse o papel que ocupava naquele sinistro encontro, a mortal teria ficado fascinada.
— Não me compare a uma reles mortal, nem em teus pensamentos mais profanos ou sonhos mais sórdidos. — murmurou em uma voz tranquilamente ameaçadora — nenhuma delas comparar-se-ia a mim, mesmo que tivesse mil anos para fazê-lo. Nenhuma mortal, nem em cem vidas, é capaz de despertar nos tolos homens o que desperto em um olhar.
— Luxúria, Luxúria... És tão vil quanto sedutora. És, em fato, o próprio pecado em carne. Quão prazerosamente invades a alma dos homens e corrompe-lhes o coração e a mente.
— Nada faço aos míseros mortais além de despertar o que estes já possuem. Não é a mim que enxergam quando me olham, mas sim seus próprios pecados. — Luxúria aproximou-se mais do homem, acariciando-lhe o rosto — Só faço dar vida a seu lado mais sombrio, a parte de mim que habita em suas almas. Em verdade, meu irmão, os mortais não passam de fantoches movidos pelos desejos obscuros, os mais soberbos. Cabe a nós lhes despertar o lado que nos pertence, a parte de nós que nosso mestre escondeu neles e que os fazem existir. Somos anjos caídos, Orgulho. Belos e malditos em toda nossa essência. Nascidos do lado maldito do anjo mais belo. Somos o que rege a humanidade e sua existência. Orgulho, Luxúria, Ganância e Indolência... Os verdadeiros Senhores do Éden. Aqueles que o homem batizou de vampiros. — Luxúria beijou-lhe os lábios — Orgulho, meu vil irmão e doce amante... A mortal clama por tua atenção. Não a faça esperar, é deveras indelicado. Seja rápido, antes que vos vejam. Sabes onde me encontrar. Estarei esperando. — e desapareceu na escuridão, do mesmo modo que chegara.
— Desculpe minha indelicadeza. — disse Orgulho a mortal — Minha atenção é toda tua agora, bela mortal.