Burquina Faso, África – Região do Sahel.
A paisagem pedregosa, seca e poeirenta não é nada convidativa. Praticamente não há vegetação ou animais nesta região. Ao se olhar desavisado, poder-se-ia pensar que se trata de mais um deserto sem vida ou algum outro lugar esquecido por Deus. Porém, nesta região, fica a vila dos operários da African Petroleum. E hoje estão todos muito felizes pois, pela terceira vez esta semana, a perfuratriz do poço quebrou. Há cerca de um mês que eles estão lutando com uma camada duríssima de pedra diábase na escavação. Mas, desta vez, não há peças substitutas e os operários receberão por quatro dias de folga até que novos equipamentos cheguem de Ouagadougou.
Próximo dali, no sítio de perfuração, algo pequeno e inebriado alcança à superfície. Ele foi o único que conseguiu seu intento e seu corpo brilha como um vagalume na noite nublada e sem estrelas. Pára por alguns instantes e alça vôo. Lépido como um beija-flor. Desaparecendo na escuridão.
Bem cedo pela manhã seguinte, no acampamento dos Médicos Sem Fronteiras, Carlos Bittencourt atende com o apoio das enfermeiras à uma fila enorme. Mal houve tempo para sua refeição apressada de apenas pão e café preto requentado. Mas ele, como muitos dos recém-chegados, é um idealista inabalável.
A maioria dos seus ex-colegas de classe já estava se especializando em segmentos mais lucrativos da medicina como a cirurgia plástica. Mas, alguém que chorou ao fazer o juramento de Hipócrates, jamais teria aceito algo assim. Para Carlos, medicina não era ofício. Era sacerdócio.
E, naquela manhã chuvosa e abafada ele atendia à fila triste. Para cuidar dos problemas que ele já conhecia de cor: AIDS, parasitoses exóticas, subnutrição, tuberculose... Ele não era insensível à sorte daquela gente mas, já havia criado há muito, uma “casca” protetora para sua própria sanidade.
Tudo corria rotineiramente até que Kossi, a efermeira mais antiga, chegou gritando em francês.
_ Docteur, vite! Il s'agit d'une situation d'urgence. Mon Dieu, je ... Vite, vite!
Puxou-o pelo braço e o fez correr até outra barraca, quase do outro lado do acampamento. Ao chegar lá, uma mulher gritava em um dialeto estranho e tinha um menina pequena desfalecida em seu colo.
_ O que foi, Kossi? O que ela te contou?
_ Não sei bem, doutor. Ela fala algum dialeto do Dioula que eu não entendo bem. Deve ser do norte daqui.
Ele toma o pulso da criança que está fraco. Sente a sua pele seca e fria. Olha as pupilas, observa as mucosas pálidas e examina a boca e...
“Isto não é possível, Senhor!”
O céu da boca não existia mais. O palato mole havia sido devorado e, o osso côncavo e branco podia ser visto; fervilhando de vida. A úvula e a língua estavam ausentes e o cheiro de podridão não tardou a se espalhar pelo ambiente.
_ Meu Deus! Miíase! Kossi, traga pinças e antissépticos. Não fica me olhando que nem uma tonta, traz tudo o que você encontrar. Gaze, esparadapo, material de sutura, larvicida. Vai, vai!
Carlos começou a retirar uma a uma as larvas do que restou da boca da menina. Nunca vira um caso tão avançado de miíase e também nada semelhante àquelas larvas gordas e pálidas. Terminou de medicar a criança e ficou observando-a desconsolado, certo que suas chances de sobrevivência eram pequenas. Quando estava para sair da barraca, a criança começou a ter uma convulsão.
Em agonia, a menina levantou o abdômen enquanto sua cabeça e os pés continuavam junto ao colchão. Gemeu baixo e expirou, desabando na cama. Um som úmido e abafado de ruptura se ouviu. Carlos tomou o pulso e não havia batidas. Observou os lençóis da cama e estes estavam agora vermelhos de sangue e cheios de larvas. A criança morrera evacuando-as.
Louis Froidevaux era o especialista em parasitologista no acampamento. Com alguma incredulidade, escutou o relato detalhado de Carlos.
_ Carlos, pelo que entendi, você está afirmando que a criança morreu, dentre outras coisas, de miíase intestinal?
_ Exato, Louis. Mas eu nunca soube de um caso destes.
_ Veja, mesmo as larvas precisam de um mínimo de ar para respirar. A gente não observa um caso como o que você descreveu porque elas simplesmente morreriam dentro de um corpo vivo. Se ocorressem somente no fim do trato intestinal, talvez fosse possível.
_Você é o especialista, Eu sugiro que façamos uma autópsia. Contra fatos, não há argumentos. A gente examina o corpo e vamos ver o que conseguimos descobrir.
Mais tarde, numa sala improvisada, Louis faz o corte tradicional em “Y” e abre a cavidade abdominal.
As vísceras estão completamente consumidas. Dentro de toda cavidade, não há mais larvas. Em seu lugar, há crisálidas amarelas e pálidas de cerca de cinco centímetros de comprimento.
_ O que é isto? O que são estas coisas?
_Louis, eu vi algo estranho. Deixa eu apagar a luz...
No escuro, as pupas amarelas brilham suavemente como se fossem jóias incrustadas no abdômen aberto.
Sentados no escritório de Louis os dois médicos discutem o que encontraram.
_ Carlos, acho que esbarramos com algum novo tipo de inseto. Algo adaptado à condição de baixa oxigenação e, provavelmente, que vive no escuro. Pois, animais que vivem em lugares sem luz geralmente criam órgãos luminosos.
_ Mas, o que ocorreu com a menina foi muito rápido. E entre a morte da criança e a autópsia, mal se passaram duas horas. Não houve tempo. As larvas não poderiam ter virado pupas. A não ser...
_ A não ser, o quê,?
_ É uma idéia louca. Suponha, que alguma criatura que viva em um ambiente semi-anaeróbico, sobreviva porque seu metabolismo é lento. Como se vivesse quase em hibernação. Sem luz, quase sem ar. O que poderia acontecer se esta criatura que vive adaptada à uma vida de fome, passasse a ter muito mais do que está acostumada?
_O aceleramento do metabolismo pelo oxigênio extra? Hum, beira o inverossímel mas, faz até sentido na verdade. Veja, precisamos cremar o corpo da menina e todas as larvas e pupas que encontrarmos. Lençóis, roupas, tudo. Não podemos nos dar ao luxo de permitir que a forma adulta desta coisa esteja voando por aí. Amanhã, quero que você e Ziro visitem à casa onde a menina morava para ver se encontram alguma evidência sobre como ela se contaminou.
Depois de quase duas horas sacolejando na caminhonete, aproximavam-se agora da vila de casebres de barro e palha e ao fundo, dominando a paisagem, via-se uma elevação brilhante e negra de aspecto ameaçador.
_Que monte estranho é aquele, Ziro? – perguntou ao motorista.
_Monte Sheol – respondeu ele secamente.
_”Sheol” é alguma palavra nativa? O que significa?
_Eu não sei. Costumava-se chamar simplesmente de “Morte Negra” em Dioula.
_E, por quê?
_ A montanha, observada de perto, parece ser feita de vidro vulcânico. E não cresce nada lá. Fica tão quente durante o dia que é insuportável de se pisar.
Chegando à aldeia, Carlos e Ziro são conduzidos pela mãe da menina que morreu.
No casebre de um único cômodo e duas camas pequenas dispostas sobre o chão de terra batida, os dois começam a procurar alguma evidência. Na parede de barro socado, há um calendário amarelecido de uns três anos atrás com uma imagem de um Jesus louro, olhando para o céu em prece. O sol muda de posição e o interior da choupana fica tomado pela escuridão.
Carlos aperta os olhos e vê um brilho débil sob uma das camas. Um inseto alado morto, grande como um beija-flor e pálido como um fantasma.
Ele coloca a criatura em um saco plástico e eles retornam ao acampamento.
_Ziro, você sabe de qualquer coisa especial sobre a vila ou dos seus arredores?
_ Só sei que, desde que descobriram que havia petróleo por aqui, a African Petroleum tem uma vila do outro lado do Sheol.
Com uma lente de aumento, Louis e Carlos observam os detalhes do inseto recuperado na aldeia. O ferrão é especialmente longo e há minúsculas esferas ainda coladas a ele. O médico abre ao redor deste e encontra uma espécie de cavidade cheia de ovos.
_Eu nunca vi coisa igual... A criatura injeta ovos? – pergunta, Louis.
_Não ouvi falar em algo igual.
_Carlos, eu acho que temos bastante Ivermectina em estoque. É uma droga que funciona bem com berne e talvez também funcione se alguém for picado. Eu quero que você verifique nossos estoques e solicite uma encomenda da maior quantidade que nossos recursos permitirem.
Na vila dos operários da African Petroleum, a folga acabou. As peças de reposição chegaram e a perfuração recomeça.
Milhares de metros abaixo, sob o que restou da camada dura de diábase, a caverna imensa espera. Com uma altura média de um prédio de quinze andares e com uma extensão de pelo menos dez quilômetros, ela guarda um ecossistema completamente independente.
Agitados com o ar inebriante que sopra de cima, a nuvem de milhões de insetos voa lentamente em sincronia nos céus do submundo. Voam como se fossem uma única criatura bailando uma dança que somente eles conhecem.
Quando o sol se põe e as perfuratrizes param, não há mais a necessidade de se esperar. Através do ofirício estreito, milhões de insetos experimentam pela primeira vez o que é ar de verdade. Seus corpos se aceleram com a energia extra e eles ganham os céus, obscurecendo a lua e as estrelas.
Na barraca que funciona como armazém de remédios, Carlos anota os estoques e já fez uma enorme encomenda de Ivermectina.
Ele sai do armazém quando observa algo como uma mancha leitosa e pequena bailando no ar. Ele coloca os óculos e se esforça para fazer foco e, apavorado, sai avisando a todos no acampamento.
_ Todos para dentro das barracas! Todos para dentro! Rápido!
Ele sai correndo por todo perímetro, empurrando as enfermeiras e os pacientes. Não há tempo a desperdiçar, não há porque ser educado. Ele respira fundo e quando vê a nuvem descendo, entra na barraca dos médicos e fecha a porta.
Lá dentro respira-se o medo. Medo em estado bruto e primitivo. O ruído do enxame é ensurdecedor. Kossi, Louis e muitos outros olham-se nos olhos completamente apavorados.
A barraca frágil começa a sacudir violentamente. A lâmpada pendurada desde o teto por um fio, balança e cai no chão, quebrando-se. O escuro somente aumenta o pânico mais absoluto. Quando a barraca não suporta mais e desaba sobre eles, não há muito o que fazer; senão, talvez, as últimas orações.
Carlos pensa neste momento em sua vida, em todo o seu esforço e sacrifício. Ele a enxerga com orgulho como uma estrada reta de virtude e caridade. Ele chora e treme quando os primeiros ferrões vão de encontro à sua pele.
Ele acorda sentindo-se péssimo. Há várias picadas inchadas e vermelhas no seu corpo, em especial, em suas costas e pescoço. Mas, surpreendentemente, não há larvas. Ele não foi infectado.
Se levanta e olha ao redor. O inferno não poderia ser mais desolador. Por todo o terreno, pessoas e animais estão mortos e dilatados. As larvas já destruiram seus corpos por dentro e as crisálidas afloram na carne intumescida.
Ele observa com tristeza os corpos de Ziro, Kossi e do Dr. Louis, dentre tantos outros. Tanta gente brilhante e altruísta. Todos mortos, horrivelmente desfigurados.
Ele caminha até a caminhonete, senta no banco, engata a marcha e sai.
Por todo caminho há corpos. Tristes e retorcidos em suas posições não naturais. Inchados e luminosos nas sombras com suas barrigas rompidas. Ele segue até a estrada rumo à capital, se ainda há capital. Só há carros e ônibus abandonados. Não vê uma pessoa viva.
Ele pára por um instante, pega um cantil com água, tira do bolso uma caixa de Ivermectina e toma algumas cápsulas. Havia muito mais nos bolsos, mas ele não poderia ter se arriscado a compartilhar antes. Não mesmo. Seria arriscado demais. Ele liga o carro outra vez e segue agora pela estrada tortuosa, a sua nova estrada de traição.
Ao fundo, o Montel Sheol queima sob o sol equatorial.
“E olhei, e eis um cavalo amarelo, e o que estava montado nele chamava-se Morte; e o Sheol seguia com ele; e foi-lhe dada autoridade sobre a quarta parte da terra, para matar com a espada, e com a fome, e com a peste, e com as feras da terra.” Apocalipse 6:8