Então, de repente, ele não ouvia mais os passos. Mas sim, um chiado que ecoava pela igreja toda.
- Aqui, padre – disse uma voz grave.
Então toda a áurea de sonho desapareceu e padre Alencar sentiu medo. As velas se apagaram e o local foi tomado pela escuridão. Ele tirou a lanterna do bolso e a acendeu com suas mãos trêmulas. O feixe de luz passou por alguns instantes pelas paredes igreja, iluminando as imagens dos santos.
Ele viu aqueles rostos esculpidos em barro e eles pareciam observa-lo, como uma platéia de uma tragédia grega. Rostos serenos e nada reconfortantes.
A chiado continuava ecoando.
- Quem está aí? – perguntou padre Alencar. – Vou chamar a polícia – ameaçou ele.
- Aqui, padre. Não vou chamar de novo – respondeu a voz, autoritária.
Padre Alencar apontou a lanterna em direção ao confessionário.
- O que você quer? – perguntou ele.
Ninguém respondeu. O Padre caminhou até lá. Pelas frestas da estrutura de madeira viu alguém se mexendo lá dentro. Ele entrou no confessionário e apontou a lanterna em direção da pessoa.
-Apague isso – disse o homem.
A luz iluminou o interior do confessionário por apenas um segundo, ou talvez menos. Mas Padre Alencar viu o rosto daquele homem. Era branco como cera e havia insetos onde deveria haver pelos. Seu cabelo, suas sobrancelhas e a barba eram amontoados de coisas que se mexiam e chiavam. E mesmo com todo aquele adorno repugnante, padre Alencar o reconheceu.
- Ouça minha confissão, padre. Depois me dê a penitência justa.
Então o padre desligou a lanterna e se encostou.
Durante os minutos seguintes ele ouviu algumas histórias. Um menino forçado pela mãe a ir à igreja. Ele chorava, mas não dizia por que tinha tanto medo. Sua mãe bateu nele e o obrigou a ir. Atrás da capela um seminarista o colocou no colo e o beijou, apertando sua cintura magra com suas mãos fortes.
Outro caso era o de um menino pobre que cuidava do canteiro da igreja para ajudar sua mãe doente. Um dia, o novo vigário da paróquia bateu nele. Um soco forte que cortou seu supercílio. Isso por que o menino mordeu seu pênis, quando, sufocado, tentou de tira-lo de sua boca pequena, de criança.
Ainda escutou outra sobre outro menino que bebeu vinho pela primeira vez e pegou no sono. Acordou de bruços, por baixo do velho padre que o batizara e lhe tinha dado a primeira comunhão.
Padre Alencar lembrava-se de cada um dos meninos. Mas quando sua mente voltava no tempo e revia os acontecimentos narrados pela voz daquele homem, os meninos tinham rostos diferentes. Seus cabelos, suas sobrancelhas e seus ralos pêlos pubianos eram amontoados de coisas que se mexiam e chiavam.
-Qual é minha penitência, padre? – perguntou a voz grave.
O velho vigário abaixou a cabeça, como fazem os derrotados. Foi quando sentiu algo subindo pelas suas pernas e, assim que ergueu a batina, viu centenas de formigas subindo pelas suas canelas.
- Que penitência merece a tentação em pessoa? Estou curioso – disse a voz, sem disfarçar o sarcasmo.
Padre Alencar abriu a porta do confessionário e correu sacudindo sua batina. Agora eram abelhas que pousavam em sua cabeça e grudavam nos poucos cabelos que lhe restavam. Algo úmido saía pelos seus ouvidos. Ele enfiou os dedos nas orelhas e puxou minhocas do tamanho de crucifixos de dentro delas. Ele cuspiu uma, duas, e então, várias aranhas.
- Vá em paz, eu gostaria de dizer. Mas não posso – disse o homem, parado arás dele.
Novamente da capela estava iluminada pelas velas. E padre Alencar pôde ver os rostos de todos os santos. Ele implorou por ajuda, mas a única coisa que ouviu foi um som que parecia um bater de asas.
Em sua agonia para se livrar dos insetos, tropeçou em um dos bancos de madeira e caiu. Seu braço direito tentou segurar em um dos castiçais, mas vacilou e padre Alencar caiu de cara no chão. Sua vista escureceu aos poucos e antes de ser dominado pela escuridão, gritou para os céus jurando arrependimento e pedindo por perdão. Mas ele soube que não tinha sido ouvido, assim que uma enorme nuvem de gafanhotos invadiu a capela, quebrando as vidraças, e voando em sua direção.
Padre Alencar teve um derrame naquela noite. Assim contam os médicos. Ele foi enterrado no cemitério que fica atrás da igreja. Em sua sepultura, o epitáfio diz que ele foi “um bom pastor para seu rebanho”. E assim ele será sempre lembrado.