sábado, 30 de maio de 2009

NOITE SEM LUA

Noite sem lua. Ruas carregadas de neblina. Numa noite como essa, parece que todos sumiram. Parece que não há ninguém na rua. Silêncio...

Uma mulher caminha cambaleante em meio à névoa. Parece perdida. Estaria alcoolizada? Solitária, caminha.

Era madrugada e a garota voltava de uma festa. Com apenas quinze anos, havia ludibriado os pais para poder sair à noite e havia ido a uma boate. Como primeira experiência na night foi traumática: luzes piscando, pessoas rodando na pista, agarrando-se...Tudo lhe pareceu muito insólito. Mais estranho ainda foi o rapaz que conheceu.

Um rapaz pálido, com ares vampirescos. Cabelos escuros, pele pálida, olhos baços, o moço era sério, diferente de seus colegas de escola. E mais velho também. Ela ficou impressionada com a delicadeza do moço. Em vez de agarrá-la como seus colegas de escola, conversou com ela, buscou-lhe bebida, preocupou-se com ela.

A garota ficou ao lado do moço, beijaram-se com delicadeza.

Próximo à meia-noite, a garota decidiu voltar para casa. O rapaz, gentilmente, propôs-se a acompanhá-la. A garota aceitou, mas explicou que ele só poderia ir até parte do caminho porque estava ali sem o consentimento dos pais.

Durante o caminho conversaram pouco. A garota, cautelosa, decidiu não dar muitos dados de si. O rapaz era lacônico por natureza. Caminharam quase em silêncio quando o rapaz convidou-a para ir ao seu apartamento ali perto. Prometeu-lhe respeitá-la, nada fazer que ela não desejasse. A garota teve medo, mas o desejo pelo desconhecido foi maior.

Ao entrar no apartamento, bateu-lhe no rosto um cheiro estranho, adocicado e quase indefinido: seria lixo em decomposição? Parecia algo apodrecendo, o que seria? O rapaz alojou-a no sofá da sala e desapareceu alguns minutos dizendo que ia para a cozinha buscar algo para beber. A garota olhou o apartamento e começou a sentir medo. Um medo inexplicável fazia o seu coração bater forte, a respiração ficar ofegante e ela sentia bolhas fazendo festa no seu estômago.

O sábio medo dizia à garota para sair correndo dali, mas ela estava paralisada. O rapaz voltou da cozinha com dois copos e lhe disse para nada temer que era apenas refrigerante. A garota constatou o gosto de Coca-cola, mas algo lhe dizia para beber bem devagar e de preferência não tomar tudo.

Ao primeiro gole a cabeça começou a rodar. Rodava tanto que ela achou que viu o rapaz rindo, gargalhando e seu rosto todo se deformava em uma máscara monstruosa. De repente, ela viu (ou pensou que viu?). Um armário na parede, a porta abriu-se (sozinha?). Vários corpos caíam de lá, corpos nus de garotas jovens, todas aparentando quinze anos, todas parecidas com ela, de cabelos escuros longos, magrinha, seios pequenos. Ela abriu a boca para começar a gritar, mas o grito não saía. O rapaz vinha em sua direção. Ela levantou-se e saiu correndo, a porta estava destrancada, conseguiu encontrar a escada e descer correndo, na maior velocidade que pode, sempre olhando para ver se o rapaz a seguia...Mas não, não havia ninguém atrás dela.

Alcançou a rua e continuou correndo, desesperada, a cabeça rodando. Na rua, a escuridão, a neblina, fazia que a situação ficasse ainda mais assustadora. Correndo, trôpega, conseguiu chegar ao metrô onde havia outras pessoas e ela se sentiu um pouco mais segura. O trem chegou e ela entrou, tremendo.

Acordou em sua cama quentinha, segura, limpinha. O medo lhe fez dar um salto.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

ETERNA NOITE

A noite já ia alta quando a jovem mulher entrou na Rua XV. Olhava repetidamente o relógio e encarava a rua vazia. Precisava chegar rápido até a avenida ou perderia o ônibus. Só havia um jeito de fazê-lo: aventurar-se por um beco mal-iluminado, refúgio de pessoas misteriosas.

Estranhamente, o beco estava quieto demais. A jovem hesitou por um momento, então acelerou o passo e encarou o silêncio do beco. Do telhado de uma das construções um homem a observava. Um aroma leve e adocicado se espalhou pelo local. O homem inspirou por um instante e sorriu.

— Uma mortal... — disse o homem — linda e jovem.

A jovem andava mais rápido. A aflição tomava conta de seu peito. Se ela pudesse ver o futuro não teria escolhido esse trajeto nessa noite. Mal sabia a jovem que seu caminho cruzaria o de outras criaturas. Duas das mais vis criaturas que existiam desde o início dos tempos. Dois filhos da noite.

As luzes do beco apagaram-se, restando uma fraca luz lunar. A jovem parou subitamente, a aflição crescendo em seu peito. O homem surgiu diante dela. Era belo, envolvente. A pele clara, os cabelos presos em um rabo baixo, as vestes pretas e o casaco assemelhavam-no aos nobres europeus. Ele aproximou-se e cumprimentou-a com um gesto cortês.

— Olá bela mortal! Há muito tempo que espero ansioso teu retorno a esta viela maldita.

A mortal nada disse. Tentou desvencilhar-se do estranho, mas ele impediu-lhe a passagem. Tentou ir pelo outro lado e foi novamente impedida. Ficaram num impasse como se dançassem o minueto. O homem ria-se com o desespero da mortal. A mortal parou e encarou o homem. Virou-se para voltar para a Rua XV, mas o homem já estava na sua frente. A mortal tentou gritar e ele segurou-a pela garganta.

— Shhh... Não tenhas medo, bela mortal. Acalma-te e desfruta desse imenso prazer. — o homem aproximou a boca do pescoço da mortal, porém parou subitamente. Um doce e inconfundível aroma de flores dama-da-noite invadiu o beco. O homem sorriu discretamente.

— Guardas o prazer somente para ti? — disse uma voz às costas da mortal.

O homem levantou a cabeça e encarou a escuridão daquele beco. Tudo estava silencioso, mas ele sabia que havia mais alguém ali, e não era alguém qualquer. Ele reconheceria aquela voz, aquele perfume, em qualquer lugar, qualquer época. O perfume de dama-da-noite intensificou-se. O homem podia sentir o coração da mortal batendo forte em sua mão. Os olhos do homem agora eram vermelhos como sangue. Ele sorriu revelando seus caninos, presas mortais. O coração da mortal batia ainda mais acelerado.

— Não me digas que tens ciúme de uma mera mortal... — disse o homem, ainda sorrindo, para a escuridão. Um passo quase inaudível e a pouca luz da lua naquele beco revelou uma mulher jovem e bela. Ela trajava um vestido preto com luvas que chegavam ao cotovelo, como fora costume na iluminada Paris, tinha os cabelos negros e encaracolados chegando à cintura e olhos brasis que encantavam e amedrontavam. Ela aproximava-se do homem calmamente, encarando-o, prendendo sua atenção a cada passo. A mulher parou ao lado do homem. Os dois encararam-se, ignorando a existência da mortal. Não fosse o papel que ocupava naquele sinistro encontro, a mortal teria ficado fascinada.

— Não me compare a uma reles mortal, nem em teus pensamentos mais profanos ou sonhos mais sórdidos. — murmurou em uma voz tranquilamente ameaçadora — nenhuma delas comparar-se-ia a mim, mesmo que tivesse mil anos para fazê-lo. Nenhuma mortal, nem em cem vidas, é capaz de despertar nos tolos homens o que desperto em um olhar.

— Luxúria, Luxúria... És tão vil quanto sedutora. És, em fato, o próprio pecado em carne. Quão prazerosamente invades a alma dos homens e corrompe-lhes o coração e a mente.

— Nada faço aos míseros mortais além de despertar o que estes já possuem. Não é a mim que enxergam quando me olham, mas sim seus próprios pecados. — Luxúria aproximou-se mais do homem, acariciando-lhe o rosto — Só faço dar vida a seu lado mais sombrio, a parte de mim que habita em suas almas. Em verdade, meu irmão, os mortais não passam de fantoches movidos pelos desejos obscuros, os mais soberbos. Cabe a nós lhes despertar o lado que nos pertence, a parte de nós que nosso mestre escondeu neles e que os fazem existir. Somos anjos caídos, Orgulho. Belos e malditos em toda nossa essência. Nascidos do lado maldito do anjo mais belo. Somos o que rege a humanidade e sua existência. Orgulho, Luxúria, Ganância e Indolência... Os verdadeiros Senhores do Éden. Aqueles que o homem batizou de vampiros. — Luxúria beijou-lhe os lábios — Orgulho, meu vil irmão e doce amante... A mortal clama por tua atenção. Não a faça esperar, é deveras indelicado. Seja rápido, antes que vos vejam. Sabes onde me encontrar. Estarei esperando. — e desapareceu na escuridão, do mesmo modo que chegara.

— Desculpe minha indelicadeza. — disse Orgulho a mortal — Minha atenção é toda tua agora, bela mortal.

Um grito abafado ganhou a escuridão do beco.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

HOMENS NÃO CHORAM

Observo com atenção o apartamento onde entrei às escondidas. Móveis de qualidade e decoração moderna dão ao lugar uma atmosfera de sofisticação. No quarto, o ar é perfumado por uma leve fragrância de lavanda, também presente na cama king size arrumada com lençóis de cetim branco. Um guarda-roupa grande, cômoda e espelhos completam o ambiente.

Um laço
de amargura estrangula meu coração quando vejo com olhos úmidos o lugar. Ao escutar vozes no corredor do prédio e a maçaneta da porta do apartamento girar, dou-me conta de que fiquei tempo demais por ali.

Preciso me esconder. Olho em volta e vejo o guarda-roupa aberto; pulo para dentro dele, empurrando as roupas penduradas, e fecho a porta. Dentro do móvel escuro, não consigo ver coisa alguma lá fora, mas, de qualquer jeito, sei de quem são aquelas vozes.

A feminina é da minha esposa.

A masculina, do seu amante.

O tom alegre da conversa entre os dois logo se transforma em sussurros apaixonados, seguido do ruído de roupas arrancadas dos corpos cheios de lascívia.

Minhas lágrimas estão prestes a irromper, mas eu me controlo como sempre fiz na vida.

Pois homens não choram.

Essa foi uma das lições que aprendi quando criança com meu pai: por maior que fosse o motivo, um homem de verdade não chora.

E naquele mesmo dia, ao lado da minha mãe sempre sorridente, e à beira de um riacho onde os bois da nossa fazenda pastavam – chamado jocosamente pelos peões de “córrego do capado” – meu pai me ensinou outra lição.

O maior bem de um homem é a sua honra.

E quando maculada, só o sangue pode lavá-la.

Ele falava por experiência própria: todos na cidade sabiam o que aconteceu com minha mãe, então uma moça recém-casada e infeliz, e o capataz com quem se engraçou. Só anos depois fui descobrir a origem daquelas cicatrizes que retesavam os músculos do rosto dela, de modo que parecia sorrir mesmo quando triste, e o porquê do riacho ter aquele nome inusitado.

Na cama lá fora, as molas do colchão rangem sob o movimento do casal.

- Mais rápido! – minha esposa implora ao rapaz grande e de pele bronzeada. O pedido é prontamente obedecido: o colchão passa a guinchar com força, conforme ela é penetrada.

Seus gemidos de desejo acompanham o ritmo.

No guarda-roupa, levo a mão ao cós da calça onde carrego o revólver, presente de casamento do meu pai para o único filho.

Lava-honra. Era assim que ele chamava a arma de fogo.

- P-para – agora escuto minha futura ex-esposa dizer num tom de urgência– Para que tá doendo!

O colchão continua a guinchar feito um animal selvagem, enquanto o amante grunhe, como se próximo do clímax.

“Chega”, digo para mim mesmo. “Preciso recuperar o que ainda resta da minha honra”.

Agarro com firmeza a coronha da arma e a retiro da cintura. Sinto o peso dela, carregada com os oito projéteis que em breve encontrarão seus alvos.

É quando noto o silêncio sepulcral no quarto. Nenhum gemido de prazer, nenhuma respiração ofegante, nenhuma mola rangendo.

Nada.

Com a arma em punho, abro a porta do guarda-roupa e pulo para fora.

Lá esta a minha esposa no centro da cama enorme. Rosto enterrado no travesseiro, barriga para baixo, pernas escancaradas num ângulo estranho. Os lençóis de cetim estão empapados de vermelho.

O cheiro de lavanda sumiu; algo podre sufoca a atmosfera do quarto.

E então vejo seu amante. Ele pouco lembra o jovem bronzeado de outrora.

Cinza agora é a cor da sua pele. O corpo, nu e sem pelos, tem o dobro do tamanho, com músculos inchados e lustrosos. Protuberâncias longas e pontiagudas cobrem ombros, costas, cotovelos e dorsos das mãos.

Ele se volta lentamente na minha direção. Seus lábios, arreganhados num sorriso grotesco que ocupa mais da metade do rosto, mostram uma gengiva negra atulhada de dentes graúdos e serrilhados. O nariz não passa de duas fendas escuras, enquanto os olhos são de um amarelo pútrido; o resto da face está salpicado de sangue.

Da virilha, sobressai um apêndice comprido, grosso e rígido, repleto daquelas mesmas protuberâncias da base até o topo. Algo vermelho e viscoso pende nele.

São as vísceras de minha esposa.

Recuo, adrenalina correndo pelas minhas veias, e reajo instintivamente: disparo o revólver.

Mas o gesto é muito lento. Antes que meu dedo encoste no gatilho, aquela coisa pula sobre mim, desferindo um tapa com as costas da mão.

Sou arremessado contra a parede e desabo no chão do quarto. Uma dor pulsante no pescoço acompanha as batidas do meu coração; sangue escorre aos borbotões do talho aberto na minha artéria.

O que antes foi o amante da minha esposa se aproxima, observando-me da cabeça aos pés com curiosidade. Segundos depois, sua língua escura e bifurcada desliza como serpente pela boca enorme e estala no ar, antes de lamber com avidez os lábios manchados de escarlate.

Sinto uma vontade imensa de chorar ao ver a morte chegar, mas me mantenho firme como aprendi com meu pai. Só espero que aquela coisa não seja necrófaga ou – pior ainda - necrófila.

Pois não posso perder o pouco que resta da minha honra.

Lista de Prêmios 4

Desculpem a demora para postar mais prêmios, mas estive bastante ocupado nos últimos dias. Bom, essa lista aqui vai ter um detalhe especial para mim, por um motivo que vocês já vão entender. Portanto, vamos aos prêmios!

LOBO ALPHA, de Helena Gomes


Texto retirado do site da editora Rocco:

"Lobo alpha, de Helena Gomes, é um livro repleto de aventura e suspense, totalmente antenado com o universo jovem de hoje. Com ilustrações em forma de história em quadrinhos assinadas por Alexandre Barbosa, o Bar, o livro dialoga com outras manifestações culturais jovens como mangás, seriados de TV e cinema, além, é claro, das próprias HQ
.

É o terceiro livro da jornalista e escritora Helena Gomes, e narra a saga de Wolfgang, um rapaz que faz parte de um clã - as criaturas -, seres humanos com poderes de mutação que vivem anonimamente em toda parte. Wolfgang tem o poder de se transformar em lobo e nada pode fazer contra a sua sina de criatura, mas, apesar de ser o mais fraco e insignificante do clã, acaba salvando a vida de Amy, uma jovem que, sem saber, carrega um segredo capaz de definir o futuro das criaturas. Juntos, eles descobrem traições, enfrentam inimigos poderosos e vivem um romance repleto de grandes aventuras ao redor do mundo.

Com uma narrativa densa e envolvente, Lobo alpha tem linguagem cinematográfica e mexe com questões importantes para o público jovem como identidade, medo do desconhecido, curiosidade, riscos e, também, amor. No livro, o fantástico se mistura aos sentimentos comuns do dia-a-dia de qualquer adolescente, e a identificação com o universo da cultura pop reafirma o pacto com o leitor jovem, prendendo a sua atenção do início ao fim."

Obs: Este livro, assim como os dois próximos (Código Criatura e Assassinato na Biblioteca) foram gentilmente cedidos pela Editora Rocco! Agora deixa eu falar algo aqui, sem demagia, apenas a verdade: sou fã dessa editora! Acho que eles fazem sempre um trabalho primoroso, a linha "Jovens Leitores" é de uma qualidade ímpar. Foi muito agradável constatar a educação com que atenderam meu pedido (mas por favor, não vão lá pedir livros pra eles, né gente? Eles doaram pelo concurso, rs). Além disso, é bom ver que mesmo uma editora grande (eles publicam Harry Potter!) dá atenção para seus leitores, preocupando-se em participar de concursos como este, que visam divulgar um gênero literário tão importante, mas que sofre tanto preconceito. Enfim, palmas pra Rocco!

Links para mais informações (como os próximos dois livros são da mesma autora, os links servem para eles também) :

Site da Editora

Site Oficial da Escritora

Blog da Escritora


CÓDIGO CRIATURA, de Helena Gomes (continuação de Lobo Alpha)

Também retirado do site da editora:

"As mutantes estão de volta e correm sério perigo! Aventura com boas doses de suspense esperam os jovens leitores no eletrizante Código Criatura, aguardada continuação de Lobo Alpha, da jornalista, escritora e professora universitária Helena Gomes. Sintonizado com a multifacetada linguagem da juventude dos dias de hoje, o livro trava um diálogo com TV, cinema e mangás ao fundir texto com HQ (história em quadrinhos) em ilustrações assinadas pelo chargista e desenhista Alexandre Barbosa, o Bar.

Wolfang é um rapaz que se transforma em lobo. No passado, ele fora o Ômega do clã, o mais fraco e insignificante do grupo, e, portanto, desprezado por seus iguais. Mesmo assim, surpreendentemente, Wolfang arriscou sua própria vida para salvar Amy do cruel alemão Blöter e do debochado irlandês Cannish – lobos como ele, porém, a serviço da gana assassina do Alpha Wulfmayer. No entanto, é a coragem, e não a força, que define um herói.

Agora, além de novo Alpha do clã – o mais forte e importante dos lobos –, Wolfang também precisa ser o guardião de Amy, afinal, ela é a chave para salvar toda a raça mutante. Improvável filha de uma humana com um lobo, Amy é um milagre fabuloso da mestiçagem carregando em seu sangue um inigualável dom de regeneração: ela é uma Derkesthai! Como tal, era capaz não só de curar, como também tinha o poder de unir as criaturas contra seus arqui-inimigos, os caçadores.

Após anos de ostracismo, eles voltaram a caçar de verdade e nada poderia impedir sua sede de perseguição, sangue e morte – a aniquilação de todos os clãs de mutantes. Um vírus mortal, liberado impiedosa e sadicamente, era a arma dos caçadores para dar cabo das criaturas. Wolfang, o lobo branco, está ao lado de Amy para que ela possa cumprir sua missão e destino. Porém, a força da Derkesthai começa a ser dividida de maneira inesperada e decifrar o Código Criatura torna-se uma ação premente para atingir o caminho da salvação – antes que seja tarde! – neste thriller com espírito de HQ de tirar o fôlego do início ao fim."

Observação pessoal: estou com esse livro aqui em casa, e a capa é fantástica! As fontes são douradas, coisa linda de se ver!


ASSASSINATO NA BIBLIOTECA, de Helena Gomes

Texto retirado do site da Rocco:

"Prepare-se para se surpreender. Assassinato na biblioteca, o novo romance juvenil da escritora e jornalista paulista Helena Gomes, autora de Lobo Alpha, entre outros, é uma bem costurada trama de ação e suspense que prende a atenção do leitor do início ao fim. Mas não é só isso. Com um enredo que vai e volta no tempo, o livro conta uma história de mistério que beira o sobrenatural, no ritmo das narrativas policiais, mas oferece mais do que puro entretenimento: para decifrar o assassinato da bibliotecária do tradicional colégio onde estuda, em Santos, no litoral paulista, o jovem Igor se envolve num intrincado quebra-cabeças e acaba descobrindo muito sobre um período negro da história do Brasil: a ditadura militar.

Novo na cidade, sem conseguir aceitar a morte do pai e o novo casamento da mãe, Igor é o típico adolescente-problema. Em casa, vive trancado no quarto; na escola, tem dificuldade para se integrar com os colegas e passa a maior parte do tempo sozinho na biblioteca, para fugir da chatice das aulas. É justamente numa de suas manhãs na biblioteca vazia, quando na verdade deveria estar em sala, que Conceição, a bibliotecária, é assassinada. O cenário é perfeito para incriminar o menino desajustado. Para provar que não é o assassino, Igor conta com a ajuda de Lara, uma menina-fantasma que mora na biblioteca da escola, local onde foi assassinada, em 1970, período negro do regime militar, quando tinha apenas 14 anos.

Alternando-se entre o crime ocorrido há 38 anos, quando Lara ia encontrar o irmão mais velho, estudante de filosofia da USP envolvido com o movimento estudantil, para entregar-lhe dinheiro para fugir, e os assassinatos que se sucedem à morte da bibliotecária, a trama surpreende o leitor com conexões inesperadas entre os fatos e os personagens a cada capítulo. A história familiar de Igor, a ligação entre a família de Lara e a de Gustavo, padrasto do garoto, a extravagante diretora Eunice, o sinistro vigia da escola, Gilmar, a bondosa e observadora irmã Mariana, professora de português há décadas, o solitário professor de filosofia Luiz, o prestigiado jornalista Henrique Sobral e o delegado Beltrão, todos estão mais envolvidos com as mortes ocorridas no Colégio Santa Maria do que Igor jamais poderia supor.

Com reviravoltas a todo momento, Assassinato na biblioteca é um romance eletrizante que leva o jovem a refletir sobre a história recente do país, mostrando como a tortura e a repressão modificaram as vidas de milhares de pessoas. A autora aborda ainda questões que povoam o universo adolescente, como as dificuldades de relacionamento nas novas estruturas familiares, enquanto envolve o leitor numa atmosfera de suspense que tem um pé na realidade e outro na fantasia, demonstrando grande habilidade narrativa para se comunicar com os jovens. Não pode faltar em nenhuma biblioteca!"


Três exemplares do livro ANACRÔNICAS, de Ana Cristina Rodrigues

"Anacrônicas – Pequenos Contos Mágicos, é o primeiro livro publicado da escritora, reunindo obras espalhadas ao longo dos anos em diferentes websites e blogs.
Ana passeia pelo gênero da fantasia/realismo fantástico com muita variedade em contos sucintos, que trafegam desde a fantasia contemporânea de autores como Neil Gaiman (influência confessa da autora, que está presente como epígrafe no livro – “O mundo sempre parece mais brilhante quando você acaba de criar algo que antes não estava lá” – como também pela revisitação do mito arturiano no conto “A Dama de Shallot”. A medievalidade e a influência histórica – e não custa dizer, a autora é historiadora formada na UFF, com Mestrado em História Moderna e atualmente está fazendo o doutorado em História Medieval na mesma universidade – está também presentes em contos como “Os Olhos de Joana” e “Feitiço sem Nome”, mas há também local para o intimismo cotidiano em “Borboleta”, “Viagem à Terra das Ilusões Perdidas” e “O Mapa da Terra das Fadas”. Há um pouco de tudo no universo de Ana Cristina Rodrigues.
O livro terá 90 páginas ao custo de R$ 20,00, contando com um prefácio do importante escritor de ficção científica Octávio Aragão, autor de A Mão que Cria e do universo conjunto Intempol. São vinte contos que trafegam no tempo, no espaço, e mais importante do que tudo, no imaginário."

Obs. Os três livros foram gentilmente doados pela autora, Ana Cristina Rodrigues!

Links:

Blog da Autora

Página que informa o e-mail para compra

Fantastik


HYPERFAN - CINCO ANOS DE FANFIC, vários autores

"Os fan fictions ganham cada vez mais espaço na Internet, especialmente aqueles dedicados a personagens dos quadrinhos. E um dos principais sites brasileiros dedicados ao tema acaba de completar cinco anos com uma novidade: o livro Hyperfan: cinco anos de fanfic.

Com um acervo de mais de 500 fanfics, a maioria ambientada num "universo compartilhado", no qual personagens da Marvel e da DC coexistem (embora também possua espaço dedicado a personagens de outras editoras, de outras mídias - como cinema ou literatura e até para criações originais).

No Hyperfan, há uma comunidade de escritores e editores, decidindo sobre os textos e a cronologia do site de forma democrática.

O livro pode ser comprado a preço de custo ou pode-se fazer seu download gratuitamente no site. Não há, contudo, histórias com personagens de terceiros, mas sim a criação de um "universo ficcional" inédito, baseado no mesmo espírito que permeia a criação dos fan fictions.

Esse universo ficcional, além de ter seu ponto de partida no livro, continuará a ser desenvolvido no site, em espaço próprio, e aberto à participação de todo e qualquer leitor/escritor.

Além dos contos que compõem o universo ficcional, há um pequeno histórico sobre os fanfics no Brasil e no mundo. As ilustrações ficaram a cargo do desenhista JJ Marreiro e o prefácio foi escrito pro Fernando Lopes, primeiro editor-chefe do site e atual editor da Marvel/Panini no Brasil."

Obs. Abra gentilmente doada por Marcelo Galvão, um dos autores!

Link:

Site Hyperfan


Três assinaturas da SCARIUM MEGAZINE, do editor Marco Bourguignon


A Scarium Megazine, para quem não conhece, é o seguinte: um misto de zine com revista de alta qualidade, belas capas, impressão caprichada. Mas o melhor são os autores. Basta entra no site (link abaixo), clicar na capa de qualquer uma das edições passadas, e verificar o time de escritores consagrados presentes em cada edição! Ah, não só escritores consagrados, mas também iniciantes criteriosamente selecionados pelos exigentes Marco Bourguignon (editor) e Giulia Moon (organizadora dos especiais de terror). Aliás, tenho o orgulho de dizer que já publiquei quatro contos em edições passadas da Scarium (para mais informações, clique aqui), e mais orgulho ainda em dizer que a primeira edição que os vencedores receberão em suas casas (número 25) também conta com uma história minha! Portanto, o tio Mario aqui oficialmente inicia sua participação mais pessoal nos prêmios oferecidos aos autores, rsrsrs! Mais informações sobre a edição 25 podem ser lidas clicando aqui!

Mas enfim, cada edição é uma verdadeira antologia de contos, em sua maioria escritores profissionais (vários escritores que estão doando livros para este concurso já participaram da Scarium). Se considerarmos o preço módico de oito reais por edição, podemos concluir que cada número é um livro quase de graça! Concluindo, eu recomendo, rsrs.

Obs: as assinaturas foram gentilmente doadas por Marco Bourguignon, editor da revista. Ah, deixa eu contar como foi meu pedido: mandei um e-mail bem cara-de-pau, pedindo uma revistinha de doação, talvez três, se não fosse muito incômodo... Daí o Marco me manda um e-mail perguntando "posso até atender seu pedido, mas não seria melhor oferecer três assinaturas da revista como prêmios?". HAUAHAUA, quase caí duro, tive que mandar um e-mail pra ele confirmar que estava oferecendo três assinaturas, não três revistas! Era bom demais pra ser verdade, mas acreditem, é verdade, rs. Cada assinatura oferece quatro revistas, portanto, é um prêmio bem mais generoso que apenas uma revista para cada.

Links:

Site da Scarium Megazine

Informações sobre a Scarium 25

Loja Virtual

Blog da Scarium


Blog de um dos autores, ou seja, eu! HAUAHAU!!!

E por enquanto é isso. Abraços, a próxima lista será a última (e também será especial para mim, aguardem!).

MUSEU DO TERROR

Demoraram quase quinze dias para montar todo o parque. Finalmente, na sexta-feira, a bilheteria abriu. Filas e mais filas se formaram para os brinquedos e as atrações principais. Isolado, em um extremo do quarteirão, ficava o Museu do Terror, que não acumulava visitantes em sua entrada.
Uma menina puxando pelo barbante um balão de gás em forma de coração pediu ao pai que a levasse naquele brinquedo. O pai disse que aquele não era um lugar para se visitar, nem mesmo era um brinquedo. E além do mais deveria ser um tanto mórbido. A menina perguntou o que era mórbido. Bateu pé, quase esperneou. Queria entrar. Estava resoluta em sua decisão.
O pai preferiu não discutir e nem explicar o significado da palavra que ela não conhecia. Apenas acatou, faria a vontade da filha, afinal, só encontrava a menina aos finais de semana. Durante os outros dias, ela ficava com a mãe. Queria ser um bom pai no fim das contas.
Uma velha gorda, com um dragão tatuado no ombro, carimbou as mãos dos dois. Agora teriam livre acesso ao brinquedo. Pai e filha entraram depois de empurrar uma espessa cortina de pano negro. O lugar era amplo e mantinha-se na penumbra. Luminárias estavam estrategicamente instaladas sobre dezenas de caixas de vidro. O tamanho das caixas variava de acordo com o objeto que ostentavam. Todas tinham uma placa de metal contendo algum texto informativo. Diferentes, porém, de quaisquer textos encontrados em museus tradicionais. Às vezes, as plaquetas apresentavam apenas o nome, a origem ou um dado relevante sobre a coisa em exposição. No geral, se resumiam a mensagens curtas e incompletas.
Os dois caminharam até a caixa mais próxima. Solícito, o pai leu para a filha. A menina ainda não estava na escola, mesmo assim já sabia juntar as sílabas e compreender parte do que permanecia gravado na plaqueta.
— Artefato: A Mão do Macaco. Origem: Índia. Concede três desejos a três pessoas diferentes. Cuidado com o que você deseja!
— Posso fazer um pedido, papai?
— Não, filha! Não perca o seu tempo. Além do mais, você acha que essa coisa seca, com garras e pelos nos trará sorte? Eu sei o que você quer. Quer um pacote de pipoca doce, não é mesmo? Não precisa pedir. Eu comprarei. Tudo bem?
— Tá bom. Olha aquela coisa na outra caixa, papai — a menina cheia de ânimo apontou para um canto.
Era um gato preto mumificado. Na placa não havia qualquer informação além do nome do felino: Pluto.
— Pobre gatinho, papai. Ele não tem um dos olhos.
— Bizarro o bichano — murmurou o pai.
Mais adiante, os dois encontraram uma caixa de tamanho médio vazia.
— Por que não tem nada aí dentro, papai?
— Vou ler o que diz aqui. Criatura: O Horla. Origem: Possivelmente extraterrena. Capturado no Brasil. Alimenta-se da essência vital dos humanos. Necessita beber água constantemente.
— Hi, hi, hi. Esqueceram de colocar o boneco aí dentro!
— Lembraram de deixar a vasilha com água. Acham que sou idiota. Vou pegar nosso dinheiro de volta! — reclamou o pai.
Uma vitrina feita junto a uma das paredes de madeira comportava uma máquina complexa. Continha uma cama de metal acoplada a circuitos, fios e chaves de alta voltagem. O pai leu a plaqueta:
— Artefato: Máquina do Dr. Frankenstein. Criada em 1816. Cuidado: A tempestade é capaz de conceder a vida. O homem não deve almejar os poderes de Deus.
— E quem teria capacidade para tanto? — o pai ironizou o alerta.
Foram em frente. Os passos do pai pesavam sobre as tábuas que rangiam. Os pezinhos da menina, no entanto, pareciam plumas deslizando no assoalho encerado.
— Um caderno velho — disse a menina indicando outra caixa.
— O diário de Renfield. O documento que Bram Stoker não teve acesso.
— Quem é essa pessoa, papai? — a menina apertava e sacudia os dedos fortes dele para que respondesse a pergunta.
— Não faço a mínima ideia. Tem um livro de verdade ali. Talvez possamos saber quem é o autor.
O livro tinha aspecto antigo. Estava aberto. A capa era de couro, as páginas amarelas graças à ação do tempo exibiam letras e uma quantidade indecifrável de símbolos gravados com uma tinta vermelha.
— Livro: Necronomicon. Escrito por volta do século VIII depois de Cristo. Autor: Abdul Alhazred, o Árabe Louco. Integra os Mitos de Cthulhu. Cuidado: portas para outras dimensões podem ser abertas a partir das intrincadas regras do livro. O inferno é o menor dos seus males.
Um frio estranho percorreu a espinha da menina. Ela tremeu e se agarrou com mais força na mão e no braço do pai. Inferno era uma palavra que conhecia e da qual não gostava.
Ao lado daquela caixa de vidro, havia outra. Continha uma garrafa de bojo largo e pescoço comprido. Uma rolha a mantinha fechada. Um líquido escuro e esverdeado repousava em seu interior. O pai leu o texto:
— Peça: Fórmula do Dr. Jekill. Cuidado: Não beba. O outro se instalará em sua alma. Chega, filha. Vamos embora. Esse lugar está me cansando. Todo mundo sabe que o Dr. Jekill não passa de um personagem. Uma invenção de algum escritor lunático. Não acredite nessas coisas. Tudo aqui dentro é falso. Estou precisando de ar.
— Pai, vamos ver só mais um. Só mais um.
— O último, então. Ali tem outra cortina e não é a saída.
— Tá escrito na placa em cima da porta — a menina demorou um pouco pra juntar as sílabas — Te...rror...Su...pre...mo!
O pai ficou curioso, o que poderia ser pior do que aquele amontoado de bugigangas espalhadas em uma sala escura e pouco ventilada? A menina o puxou pela mão. Em seguida empurraram a cortina adentrando no pequeno e abafado aposento contíguo. À direita deles havia uma única caixa de vidro. Essa era a sua legenda:
— Réplica: Little Boy. Lançada em 06 de agosto de 1945 sobre Hiroshima.
Na parede da esquerda fotos e mais fotos em preto e branco referentes à explosão provocada por Little Boy aterrorizaram o homem. O pai colocou a palma da mão sobre os olhos da filha e a carregou dali. Alguns instantes depois, ele agradecia inconscientemente a Deus por poder respirar mais uma vez o ar puro e fresco da rua.
— O que aconteceu? — quis saber a menina apreensiva.
— Vamos a um brinquedo mais legal — o pai desvirtuou o assunto. Queria afastar todo aquele terror de sua retina.
— Eu quero ir à roda gigante.
— Seu pedido é uma ordem — tentou descontrair.
— Você não tá esquecendo uma coisa?
— O quê?
— Minha pipoca doce.
Os dois passearam o dia inteiro pelo parque. O pai guardou trancafiada a lembrança do Museu do Terror em um canto bem obscuro da memória. Preferia nunca mais lembrar daquele momento.

A VIAGEM

Rodolfo Góes acordou com o ruído do despertador do celular que, vibrando e tocando música, quase pulava sobre a cabeceira de sua cama. Olhou para o lado e a cama enorme estava vazia. “Ótimo” – pensou – “A alemãzinha já se foi. Valeu à pena cada euro dos 200 que eu paguei. Foi muito engraçado escutar suas fantasias infantis sobre ser cantora ou atriz. Que burra! Puta só consegue, no máximo, filmar pornografia. Ponto.” – observou divertido.

Levantou o corpanzil gordo da cama e se dirigiu nu ao banheiro já com o celular na mão. Não eram nem seis da manhã e ele já ligava para a secretária. Sentou-se no vaso e falou.

_Brigitte, conseguiu fechar a reserva da minha passagem e a do hotel também?

_Sr. Rodolfo, consegui uma reserva agora cedo na classe econômica bem a tempo para que o senhor chegue no horário para a reunião às duas da tarde. Os vôos estão meio lotados por causa do feriado de amanhã e...

_Brigitte, eu não vôo de classe econômica. Ponto. Mesmo que eu tenha que transferir a reunião de hoje à tarde, não me interessa! Dê um jeito, use seus contatos, se vire!

Desligou irritado sem sequer se despedir. “É preciso tratar os subalternos assim.” – pensou.

Tomou banho, vestiu o robe atoalhado e ligou a máquina de fazer expresso. Abriu as cortinas e ficou apreciando o dia terminar de nascer, dourando a paisagem verde de Munique. Olhou a agenda no celular e levou um susto. “Merda! Quase esqueci.” Ligou outra vez para a secretária.

_Brigitte, hoje é aniversário da minha filha. Compra um presente e manda entregar na casa da mãe dela.

_E o que eu compro, Sr. Rodolfo?

_Não sei. Compra qualquer coisa que você goste. Só dê um jeito de que entreguem hoje lá no Recife. Manda um cartão junto e escreve qualquer bobagem. Ah, alguma novidade sobre o meu vôo?

_Sim. Eu ia ligar para o senhor agora mesmo. Se transferirmos a reunião para as cinco da tarde, posso encaixar o senhor num vôo às treze horas. Há muitas vagas na classe executiva neste vôo.

_E qual é a companhia aérea? Você sabe que eu não vôo de LOT, TAROM, estas merdas.

_Não, não. O vôo é Lufthansa.

_Fechado então. Manda pro meu celular um email com os dados da reserva e providencia a alteração do horário da reunião.

Ficou sorvendo o café forte e denso devagar enquanto admirava o apartamento enorme, decorado com gosto sóbrio e caro. Preparou os papéis e fez um resumo sobre os assuntos em pauta na reunião. Ligou o notebook e resolveu ler um pouco sobre o destino do seu vôo: Bucareste – Romênia. Era bom saber alguma coisa sobre aquela escória ex-comunista para puxar papo com os clientes. Depois, terminou de preparar a mala, vestiu o caro terno Armani e ligou para a empresa de táxi agendando sua ida ao aeroporto.

Na fila do check-in já estava irritado com a demora no embarque. Certamente escreveria um email bastante desaforado citando nomes e horários. Conhecia muita gente influente e se divertia sobre quanto estrago um simples email podia causar.

À sua frente, um jovem alemão louro de uns trinta anos, enorme e forte como um jogador de rúgbi conversa com outro homem moreno bem mais novo e mais baixo que tem sotaque espanhol. Rodolfo não daria muita atenção a eles se não visse, de repente, o espanhol dar a mão ao gigante alemão. Havia alianças douradas e iguais em ambas as mãos.

“Veados!” – pensou – “Estão em todo lugar. No Brasil estes sem-vergonhas teriam mais pudor de se exibir. Mas aqui na Europa, é um inferno. Andam de mãos dadas, beijam-se nas ruas, não querem nem saber.”

Embarcou, sentou junto à janela na confortável e larga poltrona da classe executiva e já chamava a aeromoça, grosseiramente, pedindo para saber as opções de bebidas.


Para seu desgosto e completo desagrado, o casal de homens senta ao seu lado. O alemão na poltrona do meio e o espanhol na do corredor. Ele xinga em pensamento, enquanto de soslaio observa que não seria boa idéia irritar o alemão grandalhão.

Faltavam uns dez minutos para a decolagem e, para a sua surpresa, a aeromoça traz pela mão uma senhora idosa e um garotinho de uns cinco anos. A senhora usa um simples vestido florido de algodão, do tipo que se costura em casa e é branca, gorducha e tem os cabelos bem brancos. O menino tem os cabelos cortados bem curtos e tem a tez escura, num tom de chocolate. Ele veste uma camisa com motivos infantis e segura uma girafa amarela de brinquedo numa das mãos.

“Era o que me faltava. Trazerem agora gente da classe econômica pra cá. Por que deram upgrade para estas pessoas?”.

A aeromoça acomoda a senhora na poltrona à frente de Rodolfo e o menino ao lado dela. Ele se irrita e se indigna ao escutar o menino chamando a senhora de “vovó”.

O avião se dirige à pista de decolagem e Rodolfo, assustado, observa pela janela o céu se fechando de nuvens escuras. A aeronave finalmente decola, adernando como um pássaro ferido, em meio às nuvens castanhas.

Passam-se uns vinte minutos e ele já bebeu umas duas doses de uísque. As refeições são servidas e ele aproveita para olhar, indiscretamente, o decote da aeromoça. Seu vizinho alemão observa e franze o cenho em desaprovação a seu comportamento. Talvez, mais sensível por ter bebido demais, Rodolfo começa a achar extremamente desagradável o cheiro de velhice e sabonete barato que rescende a senhora à sua frente. Como se não bastasse, ela tira um livro de contos de fadas da bolsa e fica contando histórias para o netinho, num rítmo cadenciado e lento que lhe dá sono.

Ele cochila por uns minutos e acorda com um solavanco do avião que está passando por uma área de turbulência. Os sinais de apertar os cintos são acesos. Ele aperta ainda mais o cinto e segura forte no braço da poltrona com medo. O casal de homens ao seu lado conversa tranquilo, sem dar muita importância à tempestade lá fora. Rodolfo começa a prestar atenção na conversa deles. Defitivamente, o rapaz mais baixo é realmente espanhol, pois troca o som de “v” do “w” alemão por “b”. Pelo que ele entendeu, os caras estão planejando comprar móveis novos por alguma razão. Estão organizando e se preparando para alguma coisa animadamente. Ele bebirica seu uísque e quase se engasga quando escuta uma palavra: “adoção”.

Meio bêbado e sem muita noção, ele deixa escapar alto: “Faggots!” *.

Mais que rapidamente, o alemão faz uma expressão indignada, solta o cinto e se levanta. Ele está vermelho como um tomate e agarra Rodolfo pela lapela enquanto o espanhol o segura pelo braço tentando acalmá-lo. O gigante o sacode e grunhe uma torrente tão pesada de palavrões em alemão que Rodolfo não entende sequer a metade. A senhora e o menino olham para trás assustados. Finalmente, o rapaz espanhol consegue dissuadir o companheiro que larga a camisa de Rodolfo. O homem bufa vermelho e faz um gesto com a mão, batendo o punho fechado na palma da outra mão. O espanhol fala alguma coisa sobre não dar tanta importância à “esta gente”.

O clima ficou tenso e Rodolfo, covardemente, se encolhe e finge dormir. O avião continua a sacolejar como um carro velho numa estrada esburacada. Eles entram numa nuvem escura e uma luz forte como um flash brilha e um barulho ensurdercedor se faz ouvir. O avião foi atingido por um raio!


As luzes se apagam e há uma sensação horrível de queda enquanto as máscaras de oxigênio saltam à frente dos passageiros. Agarrado à poltrona, Rodolfo observa, em meio às luzes dos raios que iluminam o interior da aeronave, a senhora abraçando o netinho, segurando-o junto ao peito como se seu corpo pudesse protegê-lo de qualquer dano. O casal de rapazes de mãos dadas e de cabeças juntas se confortando. Ele pensa com tristeza que está sozinho. Que vai morrer sozinho. Que a vida é injusta afinal.

Mas, miraculosamente, as luzes voltam a acender, o avião estabiliza e o piloto acalma os passageiros pelos autofalantes. Alguns minutos depois, os procedimentos de pouso começam e o avião mergulha numa grossa camada de nuvens brancas que cobre toda a cidade lá em baixo como um lençol alvo.

O pouso é suave e os passageiros se encaminham para pegar suas bagagens. Rodolfo está impressionado com as instalações do aeroporto. Ele tinha uma idéia muito diferente da Romênia e o aeroporto é impressionantemente limpo, bonito e moderno. Absolutamente clean.

Ele pega a mala na esteira e se encaminha para passar pela imigração. No entanto, há a frente uma fila com aquele antiquado método de seleção de artigos a declarar. Apertando o botão e acendendo a luz verde: liberado. Acendendo a vermelha, a bagagem será revistada. Isto é muito estranho, pensa ele. Este tipo de verificação é a última coisa que se faz. Sempre depois de se passar pela imigração.

À sua frente na fila, a senhora com o netinho no colo, aperta o botão e a luz verde acende e eles seguem. Bem mais à frente, através do vidro de uma janela, amigos e parentes acenam para eles contentes.

Os rapazes apertam o botão também e seguem na mesma direção da senhora. Abraçados e da mesma maneira acenando para pessoas do outro lado da janela.

Rodolfo aperta o botão e a luz vermelha acende e se faz escutar um sinal sonoro baixo e desagradável. Ele é encaminhado a um corredor lateral e segue xingando e arrastando a mala atrás de si. O corredor leva a outro corredor ainda. Este é comprido e mal iluminado e ele segue de má vontade. Ele planeja, muito seriamente, escrever um email extremamente desagradável às autoridades romenas por ter sido tão maltratado. Eles vão ver. Eles não perdem por esperar. Com certo assombro e receio ele vê muito distantes as luzes encarnadas e bruxelantes de um enorme salão ao final do corredor.

No dia seguinte, na capa dos principais jornais, há fotos do avião espatifado nas cercanias de Bucareste. Aparentemente caiu após ter sido atingido por um raio. Não houve sobreviventes, infelizmente.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

NASCIDO NO DIA DO SENHOR

Bem, vou contar pra vocês algo que um amigo de um amigo meu me contou. O que rolou com o meu camaradinha, o Domênico.

Veja só você, Domênico é o tipo de cara que inspira confiança. Um negão alto e magrelo, de uns trinta anos e com sorriso aberto, cheio de dentes brancos na cara preta. Sempre com uma palavra amiga, sempre com um conselho bem-vindo, sempre calmo. Domênico é tão gente boa, é tão sangue-bom, que ninguém, ninguém jamais acreditaria se eu contasse que ele saiu no pinote do morro. Com toda a féria da semana, junto com sua filha pequena, a Mariana. Levando algo como, no mínimo, uns quinze mil reais. Pelo que soube, pra bancar alguma operação urgente da pequena.

Nos tempos em que o dono da boca-de-fumo era o Manuelzão, talvez houvesse até perdão. Uma sova de arriar os quartos, a expulsão dele e da família do morro e pronto. Afinal, era o Domênico! Quinze anos de serviços sem falta. Trabalhou de “vapor”, “fogueteiro”, “olheiro” e o escambau. Alguém que tinha passado a cuidar da contabilidade do tráfico tão direitinho que nunca deram falta de um centavo sequer.

Mas, desde que Manuelzão foi grampeado e o Luizinho Tinhoso tomou seu lugar, ninguém no seu juízo perfeito faria o que Domênico fez. Eu me lembro muito bem de quando era o Tico que cuidava do caixa da boca e ele deu sumiço numa mixaria, uns quinhentos paus, para pagar uma dívida e repor depois. Dívida de jogo, eu acho. Quando Luizinho descobriu a diferença, juntou seus capangas mais violentos e arrastaram o Tico lá pro “microondas”, no alto do morro. E, pelo que me contaram, foi uma covardia.

Primeiro porque, pra humilhar o Tico, arriaram as calças do coitado e uns dois capangas enrabaram o pobre à força. Logo Tico, que se gabava de ser muito homem, de ser comedor. Depois, Tinhoso meteu a faca no bucho dele e deixou o sujeito berrando com as tripas de fora. Terminaram o serviço largando ele pendurado de cabeça pra baixo no lixão. Tipo, pros ratos o comerem vivo durante a noite. Todo mundo escutou ele gritando e ninguém teve coragem de fazer nada. No dia seguinte tava o corpo lá, todo comido, cheio de urubus ao redor. Até dentro da barriga tinha rato.

Domênico fugiu então com a filha pra casa da bisavó dele. Uma velha bem velha de uns noventa e lá vai fumaça, quilombola lá de Brejo dos Crioulos. Ele achava que estaria seguro lá porque o morro onde a bisavó dele mora é controlado por uma milícia. Ele pensava que Tinhoso não teria coragem de ir atrás dele lá.

Uns três dias depois que estava escondido com a menina na casa da velha, a “bisa” jogou os búzios pra Domênico. E ela olhou ele bem no grão do olho, com aqueles olhos pequenos e cheios de cataratas, porque não tinha visto nada de bom. Ele pediu então um trabalho bem pesado pros orixás. A velha era poderosa, sabia coisa do tempo dos escravos. Estas coisas que se passam de mãe pra filha, de avó pra neta. Mas a velha falou: “Num dá tempo Domê, os orixás atendem quando querem. Num é assim!” Foi então que ele pediu pra ela algo mais. Alguma coisa que deixou a velha apavorada. Um troço que ela jamais faria pra qualquer pessoa. Mas, ele não era qualquer pessoa!


No mesmo dia, de noitinha, Domênico tava fumando seu cigarrinho e bebendo sua cervejinha sossegado perto da birosca do Pimpão na subida da favela, quando um monte de carros e motos cercaram o lugar. Ele não reagiu porque não era bobo nem nada. Levou uns tapas e enfiaram ele no carro e levaram pro morro onde Tinhoso era o chefe da boca. Subiram com ele pro “microondas” e começaram a dar porrada na cara. Só socão. Quando ele tava todo ensanguentado, perguntaram: “Quem é que manda no morro? Quem é que manda nesta porra?”.

Ele falou algo baixinho que ninguém escutou. Perguntaram de novo e ele disse de novo algo muito baixo. O Fernando Malandrinho, que era um dos negões mais parrudos e braço direito do Luiz Tinhoso, chegou o ouvido bem perto da boca do Domênico e perguntou de novo.

O que eu vou contar foi coisa que um menino que tava no alto de uma árvore viu. A história passou de boca em boca e pode ser que eu esteja exagerando. Mas eu boto fé que foi assim mesmo que aconteceu.

Pois, quando o Malandrinho chegou o ouvido junto da boca do Domênico, ele não respondeu. Ao invés de responder ele mordeu a orelha. Mas mordeu tão bem mordido, feito um bicho, sei lá. Mordeu e girou o pescoço feito um leão. Arrancou a orelha com os dentes e puxou a metade da pele do rosto toda junto. Praticamente arrancou o rosto do desgraçado.

Com a boca cheia de carne e sangue, Domênico começou a rir. Todos ficaram apavorados, porque aquela não era a boca dele. Aquilo não era boca de gente. Era quase um rasgão que ia de orelha à orelha e tinha tanto dente que não parecia possível caber numa boca só.

E ele, que até então, estava ajoelhado levando porrada, arrancou a camisa e se levantou. Não era mais o Domênico, o negão simpático, que tava lá. Era coisa muito maior, muito pior.

O pessoal não pensou duas vezes. Eles sacaram os berros e saíram pipocando pra cima dele com tudo. Mas ele só ria, porque as balas derretiam e escorriam pelo corpo. Nem arranhavam o filho-da-puta. O bando se apavorou e tentou fugir. Mas, do nada, surgiu uma parede de fogo fazendo um círculo bem no meio do “microondas”.

Ficaram lá se olhando apavorados sem saber o que fazer. O bicho que foi o Domênico, jogou a cabeça para atrás, levou as mãos cheias de sangue e as esfregou no rosto todo feliz. Como se estivesse gozando ou se preparando pra gozar depois. Da cabeça, montes de cobras surgiram e a criatura gargalhava que nem louca. Sabe, não se movia feito gente. Ele meio que dançava, cada movimento seu não era natural.

De repente, parou de rir e começou a falar muito sério com uma voz tão arranhada quanto giz numa lousa : “Há favores que, de tão prazeirosos, nem precisariam ser cobrados. Há aspectos de mim mesmo que não deveriam ser despertos. Eu não sou o Exu-Elegbara brincalhão do povo negro. Porém sim, o que outros povos também antigos chamavam de Belial. Quanto a vocês, podem me chamar do que quiserem, pois não fará diferença alguma.”

Dito isto, ele rasgou as calças do Domênico que ele ainda vestia e exibiu, com orgulho, o pau ereto, gigante e espinhoso. Os gritos foram escutados no morro todo a noite inteira. A criatura só ria e gozava com todo o tipo de atrocidade. Depois de violentar Tinhoso por umas tantas vezes, parece que o beijou, enfiando a língua comprida garganta abaixo e revirando e puxando suas tripas pela boca depois. Virou o infeliz pelo avesso.

Quando amanheceu, no dia seguinte, só havia restos queimados e rasgados por todos os lados e o chão estava pegajoso de tanta porra e sangue espalhados.

O mais incrível foi o que me contaram depois. Que, o tempo todo, Domênico esteve na casa da sua bisavó, xingando baixo pra filha não escutar palavrão, enquanto tentava segurar o controle remoto da TV com as mãos enfaixadas, agora, sem os polegares dados em oferenda.

É o que eu sempre digo. O cara não é marrento, o sujeito é gente fina, é malandro das antigas. Levaria tiro por um amigo numa dura dos meganhas e tal. Mas, não fode com ele não. Não fode, porque ele pode te foder direitinho em troca!

O FALSO MENSAGEIRO

Tec Tec Tec - fazia o barulho do teclado, no silêncio das duas e meia de uma madrugada gélida e solitária. Edgar estava sozinho e se sentindo o maior dos miseráveis: “Puta, aquela que me deixou deslocado e desorientado, privando-me de sexo, vai demorar até encontrar outra que aceda aos meus caprichos masculinos” – pensava tempestuoso.

Após colocar o cigarro no cinzeiro, deixando cair pelo percurso algumas cinzas no chão, percebeu que os restos formavam um estranho símbolo, parecido com um ovo, e dentro, uma cruz invertida, ele estremeceu na hora, mesmo sem saber o que significava, mas a exatidão da imagem era assustadora.

Levantou-se e não limpou a sujeira – seria o subconsciente tentando alertá-lo de não esquecer? – foi para o banheiro e tomou um demorado banho.

Não voltou tão cedo para seu escritório, ficou na cozinha beliscando algumas bolachas e rosquinhas, sobras do café da tarde. A vontade de tomar café era grande, mas como morava sozinho e já estava um pouco tarde da noite, resolveu requentar no micro-ondas.

Todos os sábados eram assim, depois do fim de seu namoro, há três semanas. Não saía para se divertir, ficava beliscando sobras de comida e o resto do tempo - principalmente de madrugada - eram preenchidos com o computador, vício do século XXI.
A “limpeza” de seu apartamento não era das melhores depois que sua namorada se mudou. Um ar sombrio sobrevoava o ambiente. Sempre com um cheiro de enxofre, manchas apareciam na parede limpa e sempre que chegava do trabalho, havia alguns vermes na porta de entrada.

Namorou com Angélica por dois anos e meio, mas suas grosserias e comportamento explosivo pesavam mais na balança do que seus poucos gestos românticos. Angélica não agüentou!

Durante a semana, preocupava-se mais em bajular o chefe anti-social do que colocar a mão na massa.

Voltou para o escritório, varreu para um canto o resto das cinzas e foi dormir, já não tinha mais nada a fazer e o tempo começava a esfriar.

A Noite não foi das melhores, seu sono era interrompido diversas vezes pelo barulho constante do vento que balançava os galhos fazendo com que batessem em sua janela. Como seu apartamento era só de cinco andares – morando no segundo – havia duas belas árvores grandes em frente, com galhos necessitando de corte.

Acordava assustado, já que os “arranhões” na janela o deixavam inquieto e alarmado. Quando finalmente pegou no sono “pesado”, teve estranhas visões da imagem que havia se formado no chão com as cinzas do cigarro. Imagens que se misturavam com demônios, cemitério e hospital.

* * *

SEGUNDA DE MANHÃ

Toca o telefone, quanto Edgar estava se arrumando para o trabalho:

_ Ed, sou eu, Angélica, te acordei?

_ Ah... Oi Angi, tudo bem? Não, não me acordou, algum problema? - disse um pouco surpreso. Já que Angélica havia sumido desde que terminaram.

_ Estou mais ou menos, preciso falar com você, é um assunto de urgência a respeito de nós!

_ Hum... Você pode me adiantar alguma coisa?

_ Não, tem que ser pessoalmente, podemos almoçar juntos? – dizia com certa ansiedade.

_ Claro, pode ser no lugar de sempre?

_ Ok, marcado.

Edgar saiu impaciente, o que Angélica estava querendo? Deveria ser alguma bobagem, pensava. Sempre fora de acreditar em destino, em mensagens sobrenaturais e assuntos do gênero, além de gostar de jogar tarô e seguir a risca o “Feng Shui”.

“Deve ser algum sonho bobo que ela teve”. – pensava, tentando descobrir o tópico do assunto.

O trabalho não houve assuntos imediatos, a fim de que pudessem ser resolvidos com urgência. Logo que o relógio marcou onze e meia, saiu para se encontrar com Angélica. Queria saber o que era, estava ficando aflito, por mais que conhecesse sua ex e suas “bobagens”.

_ Que bom que veio Ed, não agüentava mais esperar que a manhã passasse.

_ O que foi em Angi? Você teve algum daqueles sonhos estranhos?

_ Não, o que tenho para falar é concreto.

_ Concreto? Como assim?

Após dar um gole no refrigerante, angélica dispara:

_ Fui à farmácia ontem. Depois fui ao posto fazer exame de sangue.

_ Mas você esta doente? Com AIDS? – disse quase se engasgando com arroz!

_ Edgar, estou grávida! E o filho é seu!

Edgar cuspiu o pouco de arroz que estava em sua boca, pegou o copo de cerveja e deu um gole demorado.

_ Como assim?

_ Grávida oras, de um bebê, vamos ter um filho, estou de quatro semanas.

_ Mas não tomamos cuidado?

_ Não sei, às vezes a camisinha estoura, ela não é 100% segura!

_ Bom, você quer ter?

_ Claro! Por que, você não?

_Claro, sempre quis ter um filho, e estou com quase trinta.

Eles conversaram um pouco mais e decidiram se encontrar em seu apartamento, a fim de se entenderem de vez e resolver o que fariam em diante.

Edgar volta para a casa e lembra-se do símbolo que o deixou tão transtornado na madrugada de sábado. Como estava à toa na internet, resolveu pesquisar no Google.

Digitou em pesquisar: “Símbolo Ovo” e “Cruz invertida”

Resposta: “OVO: As suas características físicas são únicas e bem definidas. É frágil. Contém um repositório de vida nova. É um embrião primitivo que, mais tarde, ergue um mundo novo. O ovo é um dos primeiros símbolos religiosos. É símbolo de fertilidade e eternidade”.

Resposta sobre a cruz: “Símbolo satanista, representando o demônio”

_ Minha Nossa Senhora. – disse se levantando rapidamente quase caindo da cadeira.

_ Que coisa mais estranha. O ovo tudo bem, pode ter sido lá um sinal, mas a cruz? Que brincadeira de mau gosto.

Um arrepio levantou os pelinhos do braço levando-o a estremecer todo. Neste momento viu o quão ruim era morar sozinho.

Então ouve-se a campainha, um pouco desnorteado segue até a porta e quando abre, não vê ninguém, mas ao chão há uma pequena caixa preta, com letras em vermelho dizendo: “Silencie o Demônio”. Edgar teme o que possa estar dentro da caixa, leva para dentro de casa, coloca em cima da mesa e decide abrir. Dentro, um punhal, de prata, parecendo novo, com cheiro de novo, e nada mais.

“Quem haveria colocado este trote de mau gosto?” – pensou enfurecido.

MAIS A NOITE

Angélica chega ao apartamento de Edgar para tratar de detalhes sobre o futuro.

Senta-se no sofá enquanto ele busca um suco de laranja para ela.

_ Háaaaa. – grita ao inclinar o copo de suco para a boca.

O Suco de laranja, doce e com uma cor vívida, se transformara em sangue, vermelho escuro.

O copo escorregou sobre suas mãos caindo no chão se tornando uma mancha enorme.

Neste momento, surge um espectro, usando preto, com seu rosto tampado com um capuz. Edgar e Angélica empalidecem.

Ele estava no canto da porta de entrada do apartamento e dizia:

_ Silenciem o Demônio

_ Co... co.. como assim? – perguntou Edgar

_ Matem o bebê!

_ Mas por quê? Quem é você?

_ O bebê foi gerado no dia seis de junho do novo milênio, às seis da tarde, no ano em que os planetas se alinharam, é o filho da besta! – Sou um mensageiro, que vim interromper que esta criança dos infernos nasça.

_ É mentira! Números não têm nada haver. Não acredito nisso!

_ A criança será um mensageiro do mal, um profeta, que ao contrário de Jesus, irá espalhar suas palavras de desordem, reunir discípulos e seguidores; a fim de espalhar o mal sobre a terra.

Como em um estado de transe, Angélica, fraca, credora em tudo que o espectro fala, pega o punhal que viu em cima da mesa e finca em sua barriga, sem mostrar expressão alguma em sua face.

O BEBÊ ESTA MORTO!

* * *

DUAS SEMANAS DEPOIS

Edgar acorda assustado e se depara com uma criança loira ao pé de sua cama, que dizia triste:

_ Meu nome é Gabriel! Minha missão era vir a terra como mensageiro de luz. Era para ser seu filho, mas acreditou no falso em que dizia ser mensageiro. Ele na verdade é o criador de um ser que habita esta terra, pronto para iniciar o terror e o mal, e eu haveria de detê-lo.

Que vocês se protejam! Pois irão precisar.

CAPELA DE HÓROS

Na escola (dia 21/03/07) Rodrigo, Felipe, Jéssica, Vanessa e Lucas estão estudando e a professora de historia fala sobre uma antiga seita satânica chamada BAPHONET que realizava rituais satânicos em um altar chamado capela de hóros e realizavam adoração ao diabo, dizem que todos os que participavam da seita morria misteriosamente, no intervalo eles combinam para ir numa festa na casa de Felipe.

À noite eles vão á festa, bebem e dançam a uma noite inteira depois da festa eles estão voltando para casa de carro (bêbados) se distraem e acabam atropelando uma pessoa, a policia vê e eles fogem, a policia os persegue, mas eles conseguem escapar escondendo-se em uma antiga casa abandonada, dentro da casa eles encontram um antigo jogo de tabuleiro trancado dentro de uma caixa, e decidem combinar um dia com os amigos para jogar.

23 dias depois (dia 13/04/07) eles se encontram novamente num ensaio de rock de uma banda amiga deles, eles assistem o ensaio e depois combinam com seus amigos Jonata, marcos, Anderson, André, Mateus e Rafael de ir jogar novamente, mas Anderson diz não e vai embora.

Então naquele dia às 3 da manhã eles e mais três mulheres vão a casa: Alice, Juliana e Roberta para jogar. Primeiro eles bebem e se divertem e depois começam a jogar:

Felipe pega um livro e lê as regras: um deve fazer o sacerdote (O mestre do jogo que controla as jogadas). E os outros 12 jogam com suas peças no tabuleiro:

As peças são iguais a peões de xadrez, mas com caveiras no lugar das cabeças.

Felipe decide ser o sacerdote e os outros se preparam para jogar.

Rodrigo joga os dados e ao tira cinco, ele avança cinco casas, seu peão cai numa casa com uma caveira desenhada, ele tira uma carta, A carta do demônio dos sonhos, ele fica com sono, então desiste do jogo e vai dormir.

Lucas joga os dados cai no mesmo lugar e tira a carta do demônio do espelho ele então vai beber água e toma um susto vendo um cadáver no espelho, então ouve um barulho na janela e quando vai ver o que é, tentáculos surgem e o puxam para fora da casa.

Rodrigo que subiu para dormir esta andando no corredor e derrepente ouve barulhos estranhos e uma lamina em forma de pendulo desce do teto e o mata cortando-o ao meio.

Anderson esta em casa com sua namorada e se levanta para beber um copo de água, ele vai para a cozinha e coloca o copo para encher, mas demora muito e sua namorada vai velo ela chega lá e o encontra decapitado sentado na mesa e grita.

Ele acorda assustado e sai da casa andando em volta da casa vê apenas arvores então vê um ceifador ele tenta correr, mas o ceifador joga a foice e o mata prensado numa árvore, ele acorda novamente e derrepente uma corda desce do teto e o puxa para cima matando-o enforcado.

A namorada de Anderson tenta ligar para a policia, mas o telefone não funciona as luzes piscam, ela se vira e da de cara com o ceifador ela grita e é golpeada pela foice sendo dividida ao meio,o ceifador desaparece e ala morre.

Então ele acorda mais uma vez e grita aterrorizado:

-O que está acontecendo?

Então é puxado por tentáculos para dentro da cama gritando, derrepente um grande jato de sangue sai da cama e inumda todo o quarto.

Jonata está jogando e cai novamente numa casa com uma caveira, mas quando ele tira uma do baralho ele ouve o grito e sobe para o quarto, deixando cair à carta (que é a carta do tridente) e vê Rodrigo morto dentro do colchão e sangue por todo o quarto então aparece um vulto (um homem com uma capa negra) com um tridente e o mata atravessado na parede.

Então começa a pingar sangue do teto, eles sobem vêem tudo e ficam assustados, mas um deles, o que estava fazendo o sacerdote fica possuído (ele fica com os olhos brancos como se estivesse cego, aparecem varias feridas no seu rosto e sua foz fica demoníaca) ela faz tremer toda a casa e os manda voltar à sala para eles terminarem o ritual.

Eles ficam desesperados e tentam fugir da casa:

Jéssica corre pelo corredor, mas uma pedra cai do teto em sua cabeça, ele desmaia e quando acorda esta acorrentada em um lugar fechado, ela olha para o chão e vê uma carta com uma pessoa acorrentada no inferno então as correntes começam a se afastar e a despedaça ali mesmo.

Marcos entra no banheiro e vê no espelho alguém com uma capa negra vindo matá-lo com uma foice ele vira e não tem ninguém, ele fica assustado suas mãos começam a sangrar, ele abre a torneira para lavá-las, mas ao invés de sair água sai uma substancia corrosiva que derrete suas mãos deixado-as parcialmente destruídas e com os ossos a mostra, ele grita e sai correndo, mas escorrega e cai desmaiado, ele acorda no meio de um pântano e começa a andar confuso, ate os troncos de uma arvore o agarrarem e o jogarem longe ele voa em direção a um tronco e é atravessado por ele.

Vanessa consegue fugir quebrando a janela com uma cadeira, o sacerdote possuído tira a carta do cemitério do monte de cartas, ela se vê num cemitério e enquanto corre, mãos de caveiras tentam pegar seu pé saindo do chão ela corre, mas não consegue encapar, quando é agarrada pelo pé ela cai e quando olha para cima e é morta por um ceifador de almas que arranca sua cabeça fora com a sua foice.

Os outros voltam a jogar, marcos tira a carta de um homem sendo puxado para o inferno, ele é jogado para fora, ele levanta e tenta fugir, mas se perde e morre sendo engolido por areia movediça, depois André tira a carta do morcego então o lugar e invadido por vários morcegos ele é atacado e eles sugam todo o seu sangue, Mateus tira a carta do anticristo o teto se abre e vários tentáculos o puxam para cima, Rafael tira a da cobra o chão se abre e ele é jogado no meio das varias cobras venenosas.

Eles ficam desesperados e Roberta destrói o tabuleiro jogando-o na parede os pedaços caem no chão e num dos pedaços esta escrito BAPHONET, então o sacerdote (possuído) invoca uma mão de fogo da lareira e mata Alice ao pegá-la e puxá-la para dentro da lareira, que queima uma carta mostrando a mão do diabo em chamas, então o sacerdote se transforma em cerberus (um lobisomem de três cabeças) e os ataca, eles fogem e são perseguidos, Juliana cai e estraçalhada por ele, o sacerdote coloca a carta de um caixão sobre o corpo enquanto Roberta continua fugindo, ela entra em outra casa e encontra o corpo de Mateus crucificado de ponta cabeça em arame o farpado, ela grita e encontra uma carta com um lobo desenhado, então vários lobos aparecem e atacam a porta tentando entrar, ela fica desesperada chorando, mas e inútil os lobos arrombam a porta e a matam estraçalhada pelas garras.

O sol começa a nascer, Felipe volta ao normal, e vai embora pensando que tudo acabou, mas de repente o ceifador aparece para levá-lo ele arranca seu coração e ele cai no chão com a carta do coração na mão e o relógio marcando 6 horas 6 minutos e 6 segundos.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

CABEÇALHO NOVO!!!

Quem entrar agora vai reparar no Sacizão invocado que está recepcionando os participantes do Concurso Contos de Terror! O desenho foi gentilmente cedido pelo amigo Lourival Junior, desenhista do estúdio Cartoon Pro. Apesar de estar com trabalho até a testa, ele se dispôs a fazer essa ilustração incrível! Agora sim, nosso concurso tem cara de evento oficial, e não aquela coisa amadora que o cabeçalho anterior transmitia, rsrs.

Valeu Junião, abraços!

quinta-feira, 21 de maio de 2009

NICOLE - A SOBRENATURAL

Nicole era uma adolescente diferente. Não tinha amigos – não porque quisera, mas porque todos a evitavam – e sua família a odiava. Desde pequena era rejeitada por todos por um único motivo: tinha poderes sobrenaturais.

Durante todos os seus 15 anos, foi humilhada por toda a cidade de Hutyfield, se tornando assim uma pessoa extremamente fechada e com medo de tudo. Na escola, a rotina era sempre a mesma: entrava na sala de aula, era alvo de comentários e cochichos, era sempre menosprezada por todos e vez ou outra quando ia embora para casa, era seguida para ser atormentada por alguns de seus colegas.

Em sua casa as coisas não eram diferentes. Sua mãe era uma alcoólatra viciada, seu pai estava preso há 12 anos, - e Nicole nem sequer o conhecia -. Ela só encontrava um refúgio: o seu quarto com a companhia de seu gato Felix. Passava o dia trancada em seu velho quarto, ora estudando, ora fazendo algo para passar o tempo. Tinha medo de dormir, pois sabia que se dormisse, as vozes apareceriam. Tinha medo das vozes. Tinha medo daquelas pessoas que apareciam em seus sonhos. Tinha medo sobre várias coisas.

Era sábado. Ela gostava dos sábados porque sabia que não teria que ir a escola.

-Nicole, você está aí em cima?

-Sim mamãe. Estou no meu quarto.

-Às vezes penso que você morreu dentro desse quarto! Desça um pouco e vá até ao mercado para mim.

-Não quero. Vou ficar aqui. – Ela preferia passar o dia inteiro vivendo seu próprio mundo do que ter que enfrentar as pessoas daquela cidade.

-Garota eu estou mandando! Desça agora!

-Já disse que não quero!

-Sua ingrata! Garota imbecil! Não sei porque é tão esquisita assim.

Nicole ouvia aquelas palavras e sentia raiva de tudo. Uma onda de pensamentos passava pela sua mente. Eram só pensamentos ruins, de toda aquela gente. Sentia ódio de todos. Ela não queria ser daquele jeito. Apenas era.

Ouviu a porta se abrindo e em seguida se fechando. Sua mãe tinha saído. Ela não gostava de ficar sozinha. O silêncio percorreu a casa. Era um silêncio perturbador. Foi quando um sussurro vindo do banheiro de seu quarto quebrou todo aquele silêncio.

-Nicole...

-Quem está aí? – Respondeu assustada. Um calafrio lhe percorreu a espinha.

-Nicole...

-Por favor, me deixe em paz! - Ela tapou seus ouvidos e correu para trás da cama onde tentava se esconder. Era um vulto enorme que saía agora do banheiro. Andava devagar como se não tivesse pressa. A cabeça estava baixa. Estava com uma grande capa preta, seu rosto estava coberto por um longo capuz. Seus olhos avermelhados fitavam Nicole profundamente. Os traços de sua face eram deformados. Sua boca mexia lentamente, mas as palavras saíam fluentemente. Tinha no rosto um sorriso malicioso.

-Por que corre de mim Nicole? Quero te ajudar...

Nicole não conseguia dizer mais nada. O medo a dominava.

-Nicole, eles não gostam de você... Eles falam mal de você... Eles não querem ser seus amigos... Ninguém se importa com você...

-Vá embora! Por favor!

-Eu quero te ajudar... Faça-os sentirem o que você sente...! Vingue-se!

-Saia daqui! Saia daqui! Saia daqui!

Nicole, pressionando a cabeça muito forte, ouviu a voz se distanciar cada vez mais até o vulto sumir de repente. Olhou para os lados ainda com medo. Levantou-se e começou a chorar. Aquilo tudo começava de novo.

Seu gato Felix, que continuava impassível deitado em um canto do quarto a observava como se soubesse tudo aquilo que estava acontecendo com sua dona.

-Venha cá Felix. Não se assuste. Tudo isso vai passar.

Felix a lambeu como se entendesse o que Nicole havia dito.

Já era noite quando a mãe de Nicole apareceu em casa. Estava bêbada. Todos os dias, ela saía de casa e voltava daquele jeito. Nicole estava deitada em sua cama, mas não pretendia dormir. De repente, ela ouviu um barulho. Era como um estrondo e vinha da sala. Abriu a porta do seu quarto e desceu rapidamente as escadas em direção da sala. Encontrou sua mãe caída no chão com uma garrafa de bebida ao lado.

-Mãe! Você andou bebendo de novo? Deixa eu te ajudar a levantar.

-Saia daqui sua estúpida! Eu não quero a sua ajuda.

-Não gosto quando você bebe.

-Não preciso que ninguém goste de mim. Ainda mais você! Você é estranha. Andam dizendo por aí nas ruas que você é uma bruxa... – E soltou uma risada sarcástica.

-Mãe...!

-Não me chame de mãe! Nunca agüentei você!

-Mas você é minha mãe!

-Não! Não sou!

-O quê? O que está dizendo?

A mãe de Nicole soltou outra risada:

-Acho que já deveria ter te contado antes não é?

-Contado o quê? Diga-me!

-Você não é minha filha! – Fez uma pausa como se tentasse lembrar de alguma coisa - Um casal meio estranho deixou você comigo ainda bebê dizendo que a buscariam depois de uns meses e depois fugiram. Bom. Já se passaram anos...Não te agüentaram! Agora penso seriamente em fazer a mesma coisa que eles fizeram... – E riu novamente com um tom irônico.

Nicole, com lágrimas nos olhos, ouvia tudo em silêncio. Não poderia acreditar. Aquela não era sua mãe. Aquela não era sua casa. Aquela não era sua vida!

-Então...então...você...eu não sou... sua filha?

-É surda? Já disse que não! E eu te odeio! Seria melhor que você não existisse. Saia daqui agora!

Nicole correu, subiu as escadas e se trancou em seu quarto. Estava mais uma vez em lágrimas. Não tinha mais ninguém. Ninguém. A sensação de abandono se misturava com ódio, raiva, tristeza, desespero...O que iria fazer agora? Como seria sua vida dali pra frente?

A madrugada caiu, e Nicole, exausta, adormeceu. Nos seus sonhos, aquela voz já conhecida lhe falava de novo:

-Vingue-se Nicole...Vingue-se...!

Nicole se revirava na cama, às vezes acordava no meio dos sonhos e encontrava o vulto preto sentado na ponta de sua cama. Esfregava os olhos e o vulto já não estava mais ali. Chovia muito e os relâmpagos a incomodavam. Ela já estava cheia daquilo tudo, daquelas pessoas, daquela vida – que nem era dela. De repente uma sensação invadiu Nicole. Estava paralisada em sua cama com olhos abertos, como se algo a possuísse. A expressão que levava no rosto era assustadora. As mãos começaram a se contorcer quando começou a lembrar do que sua mãe havia lhe dito, do que os colegas faziam com ela, de como a cidade lhe mal-tratava. Ela não merecia aquilo tudo. Um relâmpago iluminou o quarto de Nicole. Foi quando Nicole se levantou. Estava estranha. A cabeça estava ereta e não se mexia para os lados. Os olhos estavam em chamas e ela dava pequenos passos, bem devagar. Foi ao quarto de sua mãe, saiu de lá depois de uns 15 minutos. Desceu as escadas e saiu de sua casa. Era madrugada. 03:15 da manhã para ser exato. A chuva caía forte. Nicole, com passos lentos foi caminhando pelas ruas. Ela já sabia o que fazer, já sabia pra onde teria que ir.

Amanheceu o dia, a cidade estava diferente. Porém o pior ainda estava para ser descoberto. As pessoas que passaram em frente à casa de Nicole puderam comprovar. No alto de uma janela – a janela da mãe de Nicole -, pendurado em uma corda havia um corpo. Estava preso na garganta por um enorme gancho. A cabeça caía para o lado como se o pescoço estivesse quebrado, o corpo estava ensangüentado. Era a mãe de Nicole. O sangue escorria por toda a rua. Nicole a tinha matado...

O terror se prolongou quando na escola onde Nicole estudava apareceram mais dois corpos. Eram dois colegas de Nicole. Ainda estavam de trajes de dormir. Foram arrastados até a escola e mortos lá. Os corpos estavam amarrados de costas um pro outro e suas fisionomias eram assustadoras. Os olhos esbugalhados para fora e a boca completamente aberta. Não tinham os pés. Provavelmente foram cortados para não terem chances de fugir. Os corpos estavam carbonizados. Foram queimados vivos.

Na parede da escola estava um aviso, escrito com sangue:


“VOLTAREI E FAREI VOCES PAGAREM POR TUDO O QUE JÁ FIZERAM”


Espantados todos já se sentiam condenados. Sabiam que a hora de cada um chegaria, não impotaria como e nem onde estivessem.

Os moradores, alunos, e pessoas que ali estavam presentes sabiam que se tratavam de Nicole, que com sua fúria queria vingança. E sabiam também, que tudo aquilo não era uma brincadeira. Os culpados teriam que derramar seu sangue. O terror só havia começado, e o pior, não sabiam quando ia parar...